segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Anymore.

"Todos os dias bem cedo, Gail desperta e levanta, ainda meio sonolenta em direção ao banheiro que fica ao lado do quarto pequeno e, quase sempre, bagunçado. Como toda manhã, escova os dentes e entra no chuveiro, pois o dia só começa depois de um banho. Enquanto enche a mão de shampoo e espalha a espuma macia sobre os cabelos começa a pontuar os itens do dia. Se embrulha na toalha e tira o excesso de água do cabelo. Sem preocupação, escolhe uma música que, muito embora a playlist seja bem extensa, a pronúncia da palavra "anymore" de Jack Johson em "Sunsets for anybody else" sempre soa como um abraço quentinho, que não é comum quando se mora e se vive sozinha. Os vizinhos com certeza já cantam sem olhar a letra. Anda descalça até a cozinha e coloca água para ferver, enquanto mede cuidadosamente duas colheres de café extra-forte na prensa francesa.
A rotina, assim como seus gostos, quase nunca muda. Procura fazer as coisas sempre igual, como se isso confortasse alguma dor ou algum vazio que ela não sabia explicar muito bem. O mesmo café da manhã, o mesmo sabor de sorvete, as mesmas cores de roupa, a mesma mesa do restaurante, que por sinal servia sempre o mesmo prato. Só não cobrava sempre o mesmo lado da cama porque, para ela, só bastava observar o sono tranquilo e a paz de estar perto.
Gail sempre teve muita certeza que não tinha certeza de nada. Gosta de ter muito controle sob tudo apesar de saber que não controla nem o frizz do cabelo. Veste a roupa social do trabalho e sobe no salto que ela faz questão de usar, apesar de saber que não precisa. Coloca a maquiagem que sempre mostra a melhor versão dela mesma e joga o crachá dentro da bolsa. Volta para a cozinha e prensa o café que estava descansando. Tinha o costume de adoçar, mas já não se incomoda tanto com o amargo.
Educou seu paladar assim como educou tantas outras características de si.
Olha no relógio e engole rápido percebendo que já está atrasada. Pega as chaves e joga a bolsa nos ombros. Acende a luz do corredor e o celular vibra de repente. Pressiona a visualização rápida e lê um simples "bom dia". Veste o melhor sorriso e sai, para brilhar mais um dia, sunshine." - Gabrielle Benatti.

Gail, por Gail.

Cya.

É meu direito.

"Eu sei que a dor é sua, e que não pode dividir comigo, mas posso passar ela com você.
Hey, eu queria dizer que eu estou aqui, pode ser que não do seu lado, não presencialmente, mas eu estou aqui. Eu sei que tem dias que tudo pesa, exatamente tudo. As músicas estão altas demais, as pessoas falam alto demais, as nossas dores doem demais.

E por mais fortes que tentemos ser, às vezes caímos, seja essa queda por dentro, ou por fora. E eu sei que tem coisa que eu não consigo resolver, tem coisa que são totalmente suas, mas queria que soubesse que tô aqui pra pelo menos dizer que vai ficar tudo bem, e que vou ficar com você.

Eu sei que dói, afinal, eu também sinto. Nós sentimos e ficamos deslocados com nossa dor. Escolho o silêncio, a solidão, a máscara com um sorriso caindo aos pedaços, escolhemos nos encher com palavras vazias, escolhemos tantas coisas só pra poder fazer parar doer. Eu sei, eu sinto.

Mas eu sinto a minha dor, assim como você sente a sua, eu posso não saber como fazer parar, não sei como te deixar melhor, mas você pode me contar. Eu vou estar sempre aqui, pode ser que eu esteja longe, não esteja presente, mas quero que saiba da minha presença.

Eu posso não saber o que dizer, mas fico em silêncio do teu lado, sei que a dor é sua, que não pode dividir comigo, mas eu posso passar ela com você." - Mateus Santana.

Cya.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

She's got the jack.

Era uma sensação curiosa ser o único cliente com um copo de uísque no meio da tarde num café tipicamente novaiorquino, uma dose de álcool entre tantos lates, capuccinos e mufins das outras mesas. Curiosa e que, ao mesmo tempo, não me incomodava. Ninguém se importaria com aquilo nem que o copo estivesse cheio de sangue. No mês de Janeiro toda aquela falsa preocupação com o próximo que acontece no mês de Dezembro, inspirada pelo Dia de Ação de Graças e em seguida o Natal, desaparecia. Todas as pessoas voltavam a se importar unicamente com as suas próprias vidas e os seus fracassos e infelicidades particulares. Aliás, elas voltavam a não se dar ao trabalho de se iludirem ou tentarem iludir uns aos outros de que se preocupavam com alguma coisa além delas mesmas. A sensação de estar sozinho num mundo onde ninguém se importa. Um mundo onde você se sente um lobo solitário numa floresta de aço e concreto, cercado por um enxame de milhões de seres de carne e smartphones, o tempo todo, e ainda assim solitário. Sorvi mais um gole generoso de uísque.
Fiz um sinal com a mão. Uma moça loira, com os cabelos compridos e finos e uma franja bem cortada, dos seus vinte e poucos anos, que provavelmente trabalhava ali pra pagar a faculdade, atendeu ao meu chamado e trouxe a garrafa de Jack Daniels imediatamente. Ela atendia com um sorriso tímido, embora simpático. Enquanto ela servia a bebida, pensei em fazer uma graça com uma das minhas músicas preferidas do AC/DC e cantar "She's Got The Jack". Projetei na minha mente e preferi me calar, além do próprio mr. Daniels, ela era o que eu tinha mais próximo de ser um amigo ali. No mínimo, era alguém que não se fazia indiferente à minha presença e eu poderia acabar arruinando isso se agisse feito um babaca. Antes que ela lançasse um movimento de retirada, pedi que deixasse a garrafa e retribuí o sorriso simpático que ela lançara inicialmente. Ela consentiu, mais simpática ainda dessa vez. Consegui interpretar um certo alívio no seu semblante ao perceber que não estava lidando com um bêbado. Quisera eu estar bêbado. Traguei mais um gole. Parei. Não... nada ainda.
Lancei um olhar por cima da garrafa. Resolvi me distrair olhando ao redor, analisando o ambiente do lugar privilegiado onde eu me encontrava, numa poltrona vermelha no fundo do Café. Era aconchegante, sofás e poltronas confortáveis em volta das mesas quadradas, alguns bistrôs de madeira, várias luminárias e lustres pelo lugar, um balcão com várias opções de doces e bolos e atrás desse as mágicas máquinas de café. Não era muito grande, mas cada pessoa que estava ali com certeza se sentia num espaço que a abraçava e acolhia. Nas paredes, alguns quadros de pontos turísticos clássicos e tradicionais da cidade e, perto de um pequeno palco vazio ao lado da porta onde à noite aconteciam alguns shows acústicos, havia uma coleção de quadros de algumas estrelas do Blues e do Jazz - extremamente familiares pra mim, em particular. Um deles me chamou a atenção mais do que os outros: era uma pintura de Robert Johnson tocando de costas. Ele era uma lenda do Blues e um dos meus prediletos, que outrora diziam ter vendido a alma ao Diabo pra conseguir ser tão bom com as cordas, e tocar de costas era uma artimanha para "esconder a influência do demônio" sobre seus dedos, segundo os conspiradores.
Já me sentindo um pouco zonzo, mirei novamente meu copo. Estava vazio. Virei a garrafa sobre ele e assisti as golfadas do líquido sujo encherem-no, enquanto a visão enchia-me de paz. Entorpecido pelo álcool, eu costumava romantizar um pouco menos sobre a vida. Afastar a sobriedade me afastava um pouco da poesia também, embora esse não fosse um dia comum. Ponderei sobre o álcool, a ideia sobre o demônio, sobre todas aquelas pessoas ali e comecei uma inevitável divagação sobre a vida. Nada daquilo tudo ia além do que reações químicas no meu cérebro, mas nós, seres humanos, arrogantes como nenhum outro ser, somos viciados à necessidade de ter controle sobre tudo. Álcool, drogas, doses cavalares de remédios... A necessidade de acelerar ou diminuir os processos químicos nos dava a falsa sensação de sermos deuses, manipularmo-nos como achávamos que deveríamos. Deuses, não. Quiçá pobres diabos.
O sino da porta me despertou do devaneio. Lancei um olhar em direção à entrada. Minha avó costumava dizer que falar sobre o demônio era nada mais do que um convite pra ele entrar. Ela só não esperava que além de convidá-lo a entrar, ele caminharia na minha direção e ainda diria: 'Que bom que você viu meu recado, Duncan. Achei que você não viria.'
O som da voz fez a paz do uísque desaparecer.
'Olá, Gail.' (...)

Cya.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Verdades incontestáveis.

"Muitas vezes as coisas que me pareceram verdadeiras quando comecei a concebê-las tornaram-se falsas quando quis colocá-las sobre o papel." - Descartes.

Cya.

Parte dois da parte dois.

"Tira a maquiagem pra que eu possa ver
Aquilo que você se esforça pra esconder
Agora somos só nós dois, já podes parar de fingir

Mas cala essa boca e me diz com o olhar
Quem era você até me encontrar?
Se agora és diferente
O que eu fiz que te fez mudar?

Eu lembro dos lábios
Tremendo ao dizer: Eu não vivo sem você

Então diga
Que não vai sair da minha vida
Diga que não passa de mentira
Quando dizem que o amor morreu

Tira essa roupa pra que eu possa ver
Que não há uma arma tentando se esconder
O mal vive num lar perfeito e sem infiltração

Tira o cabelo da cara e me diz
Se por um segundo quiseste me ver feliz
Ou se és o meu destino tentando me dar outra lição

Eu lembro de cerrar os punhos pra dizer: Eu não amo mais você

Então diga
Que não volta mais pra minha vida
E que a nossa estrada é bipartida
Esqueça o dia em que me conheceu

Então diga
Que nem todo dinheiro dessa vida
Não vai comprar de volta acolhida
No peito de quem já foi todo seu." - Fresno.

Cya.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Hello, friend.

"Sometimes I dream of saving the world. Saving everyone from the invisible hand, the one that brands us with an employee badge, the one the forces us to work for them, the one that controls us every day without us knowing it. But I can't stop it. I'm not that special. I'm just anonymous. I'm just alone." - Elliot, Mr. Robot.

Cya.