terça-feira, 19 de junho de 2018

Mudo.

"A falta de visão que nos levou a tudo isso
Foi tão difícil de se acostumar
Só quero olhar pra frente e esquecer você
Saber o meu lugar
Em outros dias, em um tempo atrás
Eu me encontrei perdido entre as cartas que você deixou
Lembranças que o tempo apagou
E se você não quiser ouvir
As canções já não me dizem mais nada
Poderiam dizer

Preciso te lembrar como tu era no início
Era um vício difícil de deixar
Procuro em tanta gente um espelho teu
Não vejo nada, não vejo nada

Tentando ser o que eu já não sou mais
Eu vivi escondido em um mundo que você criou
E nunca mais voltou pra me libertar
E eu que não sei aonde chegar
Já caminhei tanto pra encontrar
E eu que não sei como te falar
Já escrevi tanto pra cantar

Mas se você não quiser ouvir
As canções já não me dizem mais nada." - Esteban.

Cya.

Lúcifer.

Eu costumava ser cruel comigo mesmo, o tempo todo. Assumir isso talvez fosse a coisa mais gentil que fiz nos últimos dias pra mim mesmo. Já não era uma questão de problemas com a minha auto-estima, era auto-destruição nua e crua. Eu flertava com os surtos de dar fim naquela dor toda, mesmo que isso significasse abdicar da minha vida. Mas acabar com a vida? Isso eu já fazia diariamente. Eu era um mestre em sabotar meus (possíveis) relacionamentos, todos os que tive depois de Gail. Eu estipulava metas e objetivos dos quais eu sabia não serem possíveis de serem alcançados, fosse no meu apartamento, no meu trabalho, enfim, e me julgar um fracasso por não conseguir lidar com as mais simples coisas do meu dia. Eu maltratava meus sentimentos, eu julgava minhas emoções, era difícil até pra me encarar no espelho. O Duncan que vivia dentro de mim tinha por diversão sádica esmurrar meu rosto toda vez que eu buscava por alívio e conforto em mim mesmo, nem que fosse num semblante sincero - ou mesmo dissimulado - de que tudo ia ficar bem...

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Hoje era meu primeiro dia de afastamento compulsório do trabalho. Eu sabia que a clínica iria ficar bem sem mim, principalmente pelo fato de que eles não precisavam de um psicólogo desequilibrado lá - era o que menos precisavam, pra ser sincero. Já não sei se o mesmo aconteceria comigo. Não sabia mais viver sem aquela rotina quadrada que retinha os meus esforços de uma certa maneira "construtiva" e não desperdiçada em sessões de tortura emocional enquanto eu ficava em casa ou perdido pela cidade buscando sentido em alguma coisa.
Hoje, o melhor que eu tinha era meu traseiro afundado na minha poltrona, com o traseiro da minha gata afundado no meu colo, tomando uma caneca de café bem quente pra acompanhar o Good Morning America que rolava na TV. Bom, pelo menos por hoje eu não queria começar o dia com um whisky, a cafeína com certeza faria um efeito melhor no meu corpo, muito melhor do que álcool. Eu precisava de ânimo, não de uma crise choro.
Alguém bateu na porta, de maneira delicada e sutil, me salvando da crise hipnótica de ópio social que eu me encontrava assistindo ao show da TV. Levantei pronto a agradecer meu herói misterioso. Ao abrir a porta, minha heroína me recebeu com um bom dia extasiado. Era Lorann.
Confesso que sou uma pessoa extremamente mau humorada de manhã, daquelas que dão "bom dia" por obrigação, e olhe lá, sem nem fingir um sorriso amistoso de acompanhamento. Pra uma visita inesperada não ser mal recebida, não dependia de mim, e sim de quem estivesse do outro lado da porta. Minha lista de exceções era bem restrita: minha mãe, meus irmãos ou meus sobrinhos, ou a Cléo me lambendo o rosto na cama pra que eu levantasse e a colocasse seu café da manhã. Mas depois que aquela moça havia se mudado pro apartamento ao lado, a cada dia que se passava eu torcia pra que qualquer falta de açúcar, ameaça de terremoto ou ajuda com alguma barata no apartamento fossem motivos pra que ela viesse até mim, até mesmo às quatro da manhã.
Ela tinha um sotaque ligeiramente francês que, em outras pessoas, seria cômico. Afinal, ela era americana e aquilo transformaria qualquer um num bobo. Mas nela criava um limiar tênue entre algo sexy e algo fofo. Só aquele "bom dia" já tinha uma capacidade absurda de colocar um sorriso no meu rosto com uma facilidade tão grande quanto ela mesma tinha de me oferecer um sorriso.
- Eu sei que ainda é quinta feira, mas eu vou te levar pra almoçar, ok?! Estou avisando, não convidando. - ela disse. - Você precisa sair de casa, esfriar a cabeça, e precisamos comer, afinal. Ainda estou me adaptando ao estilo de Nova York e preciso de companhia, não consigo ser um lobo solitário com a mesma facilidade que você, Dun.
Acho que pela primeira vez no ano consegui sorrir de manhã de forma sincera pra algo tão simples. Não tinha como recusar, eu sentia uma vontade absurda de estar na companhia dela. Eu sentia uma vontade absurda de estar na companhia de qualquer um, na verdade, mas nada me alegraria mais que fosse a dela.

Cya.

No one ever.

"Lately, I've been, I've been losing sleep
Dreaming about the things we could be
But baby, I've been, I've been praying hard
Said, no more counting dollars
We'll be counting stars
Yeah, we'll be counting stars." - One Republic.

Essa música me lembra um dos meus maiores arrependimentos dos últimos tempos. Cya.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Retrato.

"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?" - Cecília Meireles.

Cya.

sábado, 19 de maio de 2018

Um ano pra lembrar.

Que tu te vejas todo dia e
comece a se lembrar
Que não há palidez no teu espelho
e nem vazio no teu olhar

Da pele morena e
dos pingos de tinta
Do sorriso de encanto e
da saudade faminta

Ao passo que me perco
no enrolar dos teus cabelos
Nas curvas do teu corpo,
no teu sorriso de apelo

Te serei o lembrete
de Janeiro à Janeiro
Que das formas femininas mais perfeitas
A tua é a maior, maior do mundo inteiro.

Cya.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Anjo.

Encarei meu olhar ébrio no espelho do elevador enquanto os números roletavam no painel digital. As pessoas costumavam me dizer que eu possuía um semblante sério natural - coisa que herdei do meu pai - e que não fazia jus nenhum ao meu comportamento palhaço, segundo as mesmas. Entretanto, sob efeito de bourbon, minha expressão soava mais como "amarrada", talvez esse seja o termo mais apropriado. Testas franzidas, olhos cerrados, cara de poucos amigos. Um perfeito reflexo da grande diferença entre os meus rotineiros pileques: A cerveja me deixava de bom humor, o whisky me deprimia. O final das canecas de cerveja me faziam amar os amigos com quem eu bebia; já no fundo de cada garrafa de whisky eu não encontrava as respostas, mas pelo menos encontrava alguns motivos pra aquietar minha mente das perguntas.
Assim que a porta do elevador se abriu, os raios do sol matutino já se derramavam pelo lobe. As luzes refletidas no chão claro machucavam os olhos de quem não havia dormido ainda. Tomei a direção da porta do meu apartamento, e quando finalmente o borrão escuro foi esvaecendo, dei de cara com uma figura de um anjo, que reagiu exatamente da mesma forma que eu, como um reflexo. Não sei se o efeito das luzes amarelas que a tornavam angelical ou se eram seus traços perfeitos e agressivos aliados àquele sorriso tímido que ela me lançou, causando, por ironia, um efeito diabólico na sua feição.
O tempo parou apenas por alguns segundos, não o bastante pra recuperar minha sobriedade enquanto eu a olhava, mas o suficiente pra parecer que eu tinha muito tempo pra conseguir refletir o quão encantadora era ela. Conforme minha visão se acostumava à luz, consegui ponderar sobre cada detalhe, em câmera lenta, como um comercial de televisão. Os cabelos cor de avelã, que desciam lisos pelas laterais da testa e levemente se rendiam às curvas de suas bochechas rosadas, até terminarem na altura do peito. Voltei meus olhos de novo às bochechas, que de maneira tímida tentavam esconder as delicadas curvas das laterais dos seus lábios, que se revelaram num sorriso tímido ao bobo que a encarava. Os olhos negros construíam uma simetria emcantadora com as sobrancelhas perfeitas e os cílios compridos, como se eu conseguisse sentir que, ao me olhar com aquela expressão firme, ela me despia a pele, os músculos e os ossos, enxergando diretamente o âmago da alma. Por fim, o sorriso foi se desfazendo e seus lábios grossos e fartos foram se descolando, enviando a mim a mensagem de que já era hora de despertar do transe e agir de maneira não assustadora. Pelo menos tentar, é claro.
Antes que ela dissesse algo, me propus a segurar a caixa que ela levava, tentando demonstrar certo cavalheirismo - e empatia, afinal quando li "livros" escrito em sua lateral, imaginei que estivesse pesado. Após apanhar a caixa de seus braços, me apresentei e tentei parecer simpático. Ela ofereceu um sorriso mais amigo dessa vez, se apresentando também.
Seu nome era Lorann Green e ela acabara de se mudar para o apartamento do Sr. Mumford, que estava vago há algumas semanas. Ainda havia algumas caixas para serem levadas pra dentro e me ofereci para terminar o trabalho. Quando depositei a última no chão, me ofereci para pagá-la um café. Imaginei eu que o dia dela seria longo e, levando em conta o quão cedo estava, ela precisava de alguma fonte de energia e eu precisava ainda expulsar o que restava do efeito do álcool e permanecer em pé por mais uma ou duas horas. Ela aceitou e, enquanto entrou para apanhar uma blusa, acabei abusando novamente da ironia dentro da minha cabeça: eu que me sentia vivendo num inferno constantemente, dessa vez seria vizinho de um anjo.

Há duas quadras do nosso prédio, havia uma lanchonete que era um dos meus lugares preferidos no mundo todo, o Serggio's. Desde os primeiros dias em que me mudei para o Premier, já me sentia um freguês querido dali. O lugar não era muito grande, mas o Sr. Serj e a Sra. Luna, com o atendimento personalizado e o carinho com que recebiam seus clientes ali, faziam de lá um recinto aconchegante. Como se isso não bastasse, eles ainda tinham o melhor café das redondezas e só ali eu conseguia comer um Cheese Steak tão bom quanto os que eu comia em casa, na Filadélfia.
Depois de caminharmos até lá e escolhermos uma mesa, puxei a cadeira para que Lorann se sentasse e, tentando ser o mais afável que eu pude, pedi que ela me contasse sobre sua vida.
Talvez por ser psicólogo e já ter uma sensibilidade maior para conversar cara a cara com as pessoas, mesmo um "desconhecido" conseguia se sentir a vontade para conversar comigo como se fossemos próximos e nos conhecêssemos há tempos. Com ela não foi diferente. Após alguns minutos de conversa, onde ela parecia um pouco tímida e se escondendo por trás de alguns clichês, percebi nela uma vontade de desabafar algo. Ela havia ficado quatro meses em Lyon fazendo algumas especializações, aproveitando para visitar a terra natal de seus avós. Quando retornou para Nova York, acabou flagrando o seu noivo com outra no seu apartamento e acabou dando um fim em tudo, decidindo-se mudar dali, vindo parar até a porta ao lado da minha. Ela não foi abundante nos detalhes e eu, como bom recém-conhecido, não interpelei por mais informações.
Conversamos sobre nossos fracassos amorosos, sobre nossas bandas preferidas em comum, nosso amor por gatos e por café e a necessidade que ambos tínhamos de fugir da depressão em caminhos etílicos.
Comecei a minha história com ela num elevador me encarando, literalmente, num espelho e, ali naquela mesa, me senti olhando para um espelho também. Éramos tão iguais e ao mesmo tempo opostos. Ela era um anjo e eu um diabo, ambos vagando a mesma terra, o mesmo inferno, o mesmo céu.

Cya.